O homem que contava coisas - Jorge Fernando dos Santos




Quando era criança, ele costumava falar sozinho. Não se lembrava mais se ouvia vozes, mas que falava, falava. Disso tinha certeza. E era repreendido pela mãe que dizia:

- Pára de falar sozinho, menino. Parece doido!

E ele acabava fazendo silêncio, falando só em pensamento, sem ninguém perceber, até que um dia deixou de vez a estranha mania...

De uns tempos para cá, dera para contar coisas. E contava os azulejos do banheiro, os ladrilhos do chão da cozinha, o número de vidros do basculante da sala. Quando ia pelas ruas da cidade, contava os carros, os postes e as janelas dos edifícios. Um dia surpreendeu-se ao constatar que, após percorrer a pé um bom trecho da avenida Afonso Pena, havia contado novecentos e cinqüenta e quatro postes, oitocentos e trinta e uma janelas de edifícios e duzentos e oitenta e três degraus de escadas. No final da maratona, estava exausto, quase sem fôlego. Percebeu que realmente alguma coisa muito estranha estava ocorrendo em sua mente. Num fio de memória, lembrou-se da advertência da mãe:

- Parece doido!

- Doido? - interrogou-se em pensamento.

E a partir daquele instante, passou a observar melhor os próprios hábitos. Chegara à conclusão de que não poderia continuar daquele jeito, contando tudo o que via. Ainda no dia anterior, quase passara do ponto de ônibus onde costumava descer, distraído ao contar o número de passageiros à bordo. Assustara-se, inclusive, ao notar que a quantidade de pessoas em pé superava em mais do dobro a de pessoas sentadas. À noite, vítima constante de insônia, ficava contando ovelhas durante horas, até o sono chegar já quase ao amanhecer. Ao se levantar da cama, distraía-se contando os tacos do chão do quarto e por pouco não perdia a hora.

Mas haveria de melhorar... Já a caminho do escritório, notou um considerável progresso ao resistir à tentação de contar as grades do Parque Municipal. No serviço, procurou concentrar-se na rotina e sentiu-se melhor ao vencer o teimoso impulso que quase o levara a contar os livros de Direito na estante à sua frente. Na hora do almoço, não contou as garrafas na prateleira do restaurante e nem os bagos de arroz no fundo do prato. Retornou ao escritório sentindo-se um vencedor, verdadeiro campeão, dono de rara força de vontade. Duas horas depois, sofreu uma recaída. Surpreendeu-se contando os orifícios do crivo do mictório, enquanto urinava.

- Doido, eu? - perguntou a si mesmo, agora em voz alta.

Naquele momento, tomou uma decisão única e extrema: "Um psicanalista, eis a solução". De maneira nenhuma e em momento algum poderia contar com a ajuda dos colegas, amigos ou familiares. Sabe lá o que eles iriam pensar? Somente um especialista devidamente diplomado poderia ajudá-lo de verdade e sem fazer críticas ou observações incômodas. Entrando na sala de trabalho, consultou a lista telefônica, escolheu um nome e discou.

Marcou a consulta para dali a uma hora. Ansioso, tentando evitar o hábito de contar objetos, distraiu-se contando os minutos. Saiu do escritório, entrou num táxi e falou o endereço. Minutos depois estava deitado no divã, explicando os sintomas que tanto o afligiam. Na parede do consultório, sobre os ombros do analista, Freud o observava com um olhar austero, envolto por uma velha moldura de madeira preta.

Foram várias sessões de psicanálise. Meses depois, sem conseguir um resultado satisfatório, o analista - já ciente da extinta mania do seu paciente em falar sozinho - sugeriu a ele a substituição do novo hábito pelo antigo. Seria muito simples: ao invés de contar coisas, ele voltaria a conversar sozinho. Depois passaria a falar só em pensamento e, finalmente, eliminaria qualquer mania que lhe fosse prejudicial ao juízo.

E o doutor tinha razão, pelo menos em parte. À medida em que voltava a falar sozinho, o paciente ia deixando de contar coisas. Numa segunda etapa da terapia, passou a falar em pensamento, silenciosamente, sem nem mesmo mover os lábios. Só então percebeu um novo e perigoso sintoma. Enquanto ia deixando de falar sozinho - e já havia muito tempo que não mais contava coisas - passou a ouvir vozes que lhe falavam coisas estranhas e com muita insistência. O psicanalista tentou ajudá-lo, mas foi em vão.

Um dia, enquanto limpava um velho revólver que herdara do pai, o homem que contava coisas ouviu uma voz insistente: "Estoure os miolos. Vamos, estoure os miolos e resolva todos os seus problemas".

Como que hipnotizado, não resistindo à ordem insistente, ele carregou a arma - depois de resistir à tentação de contar os cartuchos que tinha dentro da caixa. Então, puxou o cão para trás e enfiou o cano no ouvido. Mas, por ironia de sua própria sorte, ao invés de fazer uma contagem regressiva, resolveu contar de um até três e nunca mais conseguiu parar.
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Lost 2010: o que esperar da sexta temporada?


O que podemos esperar da temporada final de Lost? Bom, a quinta temporada começou meio enrolada, mas os últimos episódios elevaram a série àquilo que a tornou tão impressionante. Aliás, os roteiristas de Lost conseguem diabruras inexplicáveis: conciliar absurdidades, suspense e enredo de uma maneira que poucas vezes eu vi. Em tempos do modismo do show da vida real ficcionados por editores de meia tijela, tão chatos e medíocres, e dos Stand Up sem graça, a boa ficção sobrevive.

No poster da sexta temporada têm algumas insinuações, nada de spolier. Cliquem na imagem e vejam.


Da esquerda pra direita:

Daniel, Boone, Miles, Michael, Ana Lucia, Charlotte, Frank, Shannon, Desmond, Eko, Kate, Jack, Sawyer, John, Ben, Sayid, Libby, Sun, Jin, Claire, Hugo, Juliet, Charlie, Richard, Bernard, Rose e Vincent.

Sem Jacob, aquele rival dele ou Walt.

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Imagem: Lostpédia

20 de novembro: o Big Bang está de volta.


Genebra, 20 de Novembro de 2009. Cientistas comemoram o restabelecimento do LHC (Large Hadron Collider). Após a restruturação de uma viga, na última quarta feira, hoje os feixes voltaram a circular no mais poderoso acelerador de partículas do mundo, num experimento denominado ATLAS.

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fonte: http://cern.ch/public

Oswaldo França Júnior: Os dois irmãos. Cap I.

"O homem acompanhava o enterro do pai e um amigo de seu irmão inclinou-se ao lado do caixão e disse:
— Vai, meu velho. Vai e não tenta voltar.
— Ele não pode falar assim — disse o homem. Mas o irmão não lhe deu resposta. E ele insistiu:
— Seu amigo não pode falar desse modo ao nosso pai que já está morto.
— Deixe-o — disse o irmão, — Ele pensa que assim o está ajudando. E o amigo do irmão continuou seguindo o enterro, inclinando-se ao lado do caixão e dizendo:
— Vai, meu velho. Falta só um pouco mais. Vai e não tenta voltar."


Sincroncidade - JUNG, Carl Gustav.



"Na manhã do dia Iº de abril de 1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem, metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do 'Peixe de Abril' (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho. Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do Lago. Como ninguém pôde estar lá, não tenho idéia de como o peixe foi parar ali.
    [961] Quando as coincidências se acumulam desta forma, é impossível que não fiquemos impressionados com isto, pois, quanto maior é o número dos termos de uma série desta espécie, e quanto mais extraordinário é o seu caráter, tanto menos provável ela se torna. Por certas razões que mencionei em outra parte e que não quero discutir aqui, admito que se trata de um grupo casual. Mas também devo reconhecer que é mais improvável do que, p. ex., uma mera duplicação."

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Fonte: JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. Petrópolis: Vozes, 2000, 10ª edição, volume VIII/3 das Obras Completas.
1 [Publicado pela primeira vez no Eranos-Jahrbuch XX (1951). Tratava-se originariamente de uma conferência que o autor pronunciou perante o Círculo Eranos de 1951, em Ascona na Suíça].
Imagem: René Magritte. Collective Invention. 1934. Oil on canvas. 73.5 x 97.5 cm. Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Germany.

05 de dezembro: I Primeiro Torneio de Verão de Luminárias-MG

 

A atuante Associação de Moradores do Bairro da Chácara dá mais um demonstração de mobilização popular e organização, com a promoção do Iº Torneio de Verão de Luminárias. O evento terá início no dia 05 de dezembro e envolve diversas modalidades esportivas: futsal, vôlei, natação, queimada, gincana, truco, buraco, jogo de damas, maratona, sinuca, peteca entre outros.

Data: a partir do dia 05 de dezembro de 2009
Local: Sede oficial no Clube Mareião
Promoção: Associação de Moradores do Bairro da Chácara
Apoio: ONG Jacu da Roça
Informações: atualacademia@bol.com.br (35)9928-7951


O muro que não caiu.


“Somos os filhos do meio da história e fomos ensinados pela televisão a acreditar que um dia seremos milionários, astros de cinema e do rock, mas é mentira.”


(Tyler Durden, personagem do livro Fight Club de Chuck Palahnuik)


Por: Marcos Vinícius Almeida


No dia 9 de novembro, o Jornal Nacional exibiu uma matéria comemorativa da queda do muro Berlim. Durante a matéria, que buscou o respaldo científico intercalando fala de historiadores, além das clássicas cenas das marretadas no muro, a edição reforçou a alegria dos alemães orientais com a unificação. O elemento concreto da unificação apresentado pela matéria foi a moeda coberta pela bandeira alemã. Em seguida, uma imagem antiga de Pedro Bial em meio à multidão exibindo uma cédula, logo substituída por imagens de prateleiras e caixas de supermercado e uma voz em off dizendo sutilmente que "Cuba empobreceu" por não aderir àquela prosperidade e riqueza trazida pelo modo de vida capitalista.
Esse tipo de edição poderia muito bem circular nos tempos da bi-polaridade. Apenas não entendo a razão. Penso que talvez seja uma espécie de temor: mas que tipo de temor? Medo de uma ameaça do torto comunismo chinês (economia socialista de mercado) ou da entrada de Chávez no Mercosul, srs. editores? É isso? Se não há mais muro, se não há mais ameaça comunista, porque essa retração do outro lado? Outro lado que, aliás, não existe. Será um reflexo condicionado adquirido ao longo da história, incorporado como doença crônica pelos editores, pungindo toda vez que a ameaça vermelha inexistente é mencionada, até mesmo em datas comemorativas?
Coisificação e antropomorfização


Na mesma edição, foram exibidas cenas do desastre em El Salvador. O jornalista aproxima-se de uma casa soterrada, a câmera corre curiosa até uma janela. A voz do sujeito pronuncia: "É uma janela, e isso aqui... Isso aqui é uma porta." O tom de fato curioso continua sobre as pedras que rolaram, sobre os destroços, sobre as pessoas que passam ao fundo. O tom de turismo prossegue a tal ponto que sequer podemos vislumbrar que viviam pessoas naquelas casas, mesmo quando o jornalista pronuncia rapidamente que as casas eram habitadas; quando tal nota vem, já é tarde demais: estamos submersos.
Não foi isso que aconteceu na edição de domingo, 8 de novembro, do Fantástico, em uma matéria referente ao derretimento das geleiras. Enquanto na matéria sobre El Salvador do JN há uma coisificação das pessoas, no Fantástico (talvez por isso esse nome) há uma antropomorfização dos ursos polares. Numa tomada digna de filmes da Disney, os pobres ursos polares sofrem isolados e sozinhos, famintos, "entregues a própria sorte" – diz a voz em off. Depois, um giro pela Europa, onde a voz diz, diante da imagem de uma santa "agora é a montanha que roga por proteção"; depois passamos pela África do Sul, onde mais animais são mostrados, a desertificação no nordeste, uma mulher colhendo água na Bolívia, e o guia turístico dos Andes, não nos comovem tanto como o pobre urso faminto, "entregue a própria sorte".


Exploração e desigualdade


O muro que não cai, que permanece firme, rijo, absoluto, é o da prosperidade da economia de mercado; o muro que não cai é aquele que ofusca a visão de que os efeitos colaterais do aquecimento global vão afetar, e já estão afetando, primeiro os mais pobres. Não se toca no assunto de que a queda do muro de Berlim é um dos grandes responsáveis pelo crescimento do consumo, já que se celebra não apenas a queda de um poder totalitário, mas a prova concreta de que o consumismo, a economia de mercado, é a melhor coisa que homem inventou para si em todos os tempos. Não adianta o respaldo risonho de doutores em história, não é uma celebração da democracia, não é algo tão simples, ingênuo e nobre assim; é uma exaltação quase religiosa ao símbolo maior das regras da riqueza pela riqueza e do poder pelo poder, o custo de exploração e da miséria. Não se toca nesse assunto. É querer demais...
E cá ficamos nós, afinados com discurso de coral que canta o desenvolvimento sustentável: desenvolvimento sustentável do capitalismo de mercado com todas suas formas de exploração e desigualdade. Somos nós carregando as latas de cimento nas costas, sol a sol, fixando tijolos, amarrando vergalhões – erguendo esse muro que não cai. Nós: conscientes e preocupados com o pobre ursinho faminto, "entregue a própria sorte".



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Imagem: via wikipedia.org